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Gastronomia por Roberta Sudbrack
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16/10/2007 ..

Nossa panela de pressão emocional...



Outro dia estive pensando na emoção que corre solta por essas veias diariamente. Na solidariedade, amizade, o cuidado que cada um tem com cada cantinho dessa cozinha. Recebi um telefonema de uma grande amiga, grande chef também, a Sônia. Ela me confidenciou que acompanha o blog atentamente, já faz algum tempo. Conhece pelo nome algumas pessoas. Ri, chora, vive as emoções que compartilhamos, mas participa de longe. Muito longe. Está morando em Bucareste, na Romênia. Imagino que, como ela, tenham tantos outros olhinhos escondidos por aí... Olhinhos da China, do Japão, da Nova Zelândia, da Noruega... Acredito que é questão de tempo, logo todos esses olhinhos estarão olhando de dentro para fora!

Qual será o verdadeiro motor que impulsiona essa emoção toda, e que faz desse lugar essa panela de pressão emocional? Quais são as ferramentas de trabalho que utilizamos para atingir esse resultado diariamente no nosso mise-en-place? Quais são os equipamentos ultramodernos instalados nessa grande cozinha, afinal, capaz de despertar sensações tão profundas?

Sabe lá! A vida é como uma panela de molho em fogo brando, pode seguir o seu curso e ir concentrando o liquido até que esteja quase gelatinoso. Pode ferver depressa demais e entornar o caldo de uma só vez! Pegar no fundo da panela e queimar, amargar, estragar tudo. Salgar demais...

Mas uma coisa é certa, usando bons ingredientes e respeito, pode-se chegar a lugares tão fantásticos, que nem a ciência jamais ousou imaginar. E para isso não é necessário nenhum equipamento ultramoderno, nenhum conhecimento de física ou química, muito menos uma pitada de umami! Basta freqüentar boas feiras, conhecer agricultores apaixonados, padeiros incansáveis e pescadores conscientes. Concentrar boas vibrações na panela cada vez que a sua tampa for aberta para espiar a evolução do molho. E acreditar que dali pode-se extrair felicidade!

Até!
18/10/2007 ..

Cozinhar o verbo...



Talvez poucos entendam o real sentido da palavra cozinhar. Talvez alguns cheguem a ter a ilusão de que compreendem perfeitamente. Talvez alguns acreditem que conheçam todas as facetas desse verbo. Talvez até acreditem que dominam a conjugação por inteiro!

Cozinhar é o verbo mais completo que conheço. Começa em doação e termina em alegria. Navega firme em águas turbulentas, com a certeza de que o porto seguro chegará. Imita a arte na sabedoria e na essência. Contradiz o razoável nos mínimos detalhes. Enfrenta as batalhas com elegância e altivez. Ilumina convicções e inflama razões. Emociona, entrega, confia, agrega, enaltece, sorri...

Cozinhar é a extensão do verbo ser.

A única coisa que não se deve, sob pena de se tornar medíocre, é acreditar que já conjugou todas as possibilidades desse verbo!

Até!
19/10/2007 ..

Gente chata...



Gente chata tem em todo canto! É uma praga: nasce em qualquer matinho e se espalha sem pedir licença. Parece ora-pró-nobis! Adoro ora-pró-nobis, tenho a maior dó de podar, mas quando ele começa a se espalhar não tem quem segure! Tem gente chata no trânsito, na rua, no supermercado, no restaurante, no cinema, na praia, na livraria...

Eu mesma sou uma delas! Tenho um amigo italiano, o Sandro, que sempre diz: você não é nem muito, nem pouco chata, é justamente chata! Apesar disso, ele acredita que cheguei até aqui muito por causa disso! A chatice quando é benigna acaba por se transformar em perfeccionismo, em obstinação. O que convenhamos, apesar de incomodar, não perturba!

Existe uma diferença enorme entre incomodar e perturbar. Já viu, em algum hotel, uma plaquinha onde estivesse escrito: “Por favor, não incomode”?

Incomodar faz parte do jogo! Quando você faz sucesso, incomoda. Quando conquista algo, mesmo que com o seu próprio suor e o de mais ninguém, incomoda! Quando se sobressai, incomoda! Quando atinge um nível de maturidade que te proporciona ser mais ousado, incomoda. E como! Quando acerta incomoda. Quando se propõe a tentar coisas novas, e por acaso consegue, incomoda!

Incomodar faz parte, é saudável, perturbar já é outra história. Perturba quem não tem nada mais interessante para fazer. Perturba quem enxerga o que está errado à sua volta, mas não consegue olhar para si mesmo. Perturba quem se incomoda demais. Perturba quem ama de menos! Perturba quem não gosta de cachorro, nem de cozinha! Perturba quem se acostuma com a vida de uma só cor e não quer nem saber das tantas outras possibilidades do catálogo!

Eu como boa chata que sou, assim que entro no quarto de algum hotel, penduro logo aquela plaquinha: “Por favor, não perturbe”!

Até!
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